O feminicídio no Brasil é mais do que uma estatística criminal: é uma epidemia social que revela a persistência de uma cultura patriarcal enraizada, marcada pela dominação masculina e pela naturalização da violência contra a mulher. Desde 2015, quando o feminicídio foi tipificado como crime hediondo, o país passou a registrar oficialmente os casos, mas os números não diminuíram. Pelo contrário, cresceram de forma alarmante, mostrando que a lei, isoladamente, não é suficiente para conter a brutalidade.
Entre 2016 e 2018, relatórios nacionais já apontavam o aumento contínuo de casos, sobretudo dentro de casa, onde companheiros e ex-companheiros transformam o lar em palco de guerra. Essa realidade escancara a contradição: o espaço que deveria ser de proteção e afeto é, para muitas mulheres, o lugar mais perigoso.
O período de 2019 a 2022 trouxe retrocessos significativos. A fragilização das políticas públicas de proteção às mulheres coincidiu com o incentivo ao armamentismo civil. A liberação indiscriminada de armas, somada a discursos políticos que reforçavam o machismo e a misoginia, ampliou o poder letal dos agressores. Discussões domésticas passaram a terminar em tragédias irreversíveis, com armas de fogo transformando conflitos em mortes instantâneas.
Nos anos de 2023 e 2024, a epidemia se consolidou. Mais de 1.400 mulheres foram assassinadas em 2023, segundo dados oficiais, e em 2025 o país registrou mais de 5.500 casos de feminicídio consumados ou tentados apenas até outubro. A taxa anualizada de 5,12 por 100 mil mulheres coloca o Brasil entre os países mais violentos da América Latina nesse quesito. Esses números não são frios: representam mães, filhas, trabalhadoras, vidas interrompidas pela violência de gênero.
Do ponto de vista antropológico, o feminicídio é sustentado por uma lógica de dominação masculina que atravessa séculos. Seitas reacionárias e conservadoras reforçam a ideia de que o homem é provedor e a mulher deve ser submissa. Essa narrativa legitima práticas de humilhação e subordinação, transformando relações afetivas em relações de poder. A educação machista, que ensina meninos a dominar e meninas a obedecer, perpetua o ciclo da violência.
Do ponto de vista psicológico, muitos homens não conseguem lidar com frustrações e rejeições. A mulher que decide romper o ciclo de violência ou buscar autonomia é vista como ameaça ao controle masculino. O resultado é a explosão de agressividade, que se manifesta em violência física, psicológica e, em casos extremos, no feminicídio.
O feminicídio, portanto, não é apenas um crime individual, mas a expressão máxima de uma cultura que legitima a posse do corpo e da vida da mulher pelo homem. Cada caso é um alerta de que o inimigo pode morar ao lado, sorrindo, fingindo amor, mas pronto para destruir vidas.
É urgente enfrentar essa epidemia com políticas públicas robustas, educação para igualdade de gênero desde a infância, responsabilização severa dos agressores e combate ao discurso de ódio e à cultura armamentista. Sem essas medidas, o Brasil continuará enterrando mulheres e crianças vítimas de uma guerra silenciosa que acontece dentro dos lares.
Marco Aurélio Zaparolli, jornalista, CEO do Grupo Portal de Notícias, observador do mundo e ativista dos direitos humanos.


